A vida quase nunca avisa que está acontecendo.
Você acorda, trabalha, resolve o que precisa ser resolvido, cuida de alguém, assiste a alguma coisa à noite, mexe no celular e dorme. No dia seguinte, começa de novo.
No meio dessa repetição, às vezes vem a pergunta:
É isso que significa viver?
Há muito tempo penso nos dias ordinários. Na rotina, nas coisas pequenas e na facilidade com que tratamos tudo isso como um intervalo entre um grande acontecimento e outro.
Esperamos a viagem, o amor, o dinheiro, o reconhecimento, a mudança. Esperamos por uma experiência que nos permita dizer: agora, sim, minha vida começou.
E uma pergunta sempre me acompanha:
Onde fica o sagrado no meio de tudo isso?
Nos últimos dias, ela ficou rodando na minha cabeça com mais insistência. Meu tio fez a passagem pouco tempo depois de receber um diagnóstico. Foi rápido. Rápido demais para quem estava ao redor conseguir acompanhar.
Desde então, uma certeza tem permanecido comigo:
Ele cumpriu a missão que veio cumprir aqui.
Não faltou nada.
Sei que pode soar estranho dizer isso depois da morte de alguém. Quando uma pessoa parte, começamos a procurar o que poderia ter sido diferente. E foi o que ouvi nas conversas ao meu redor:
Ele deveria ter aproveitado mais.
Deveria ter viajado mais.
Poderia ter feito isso ou aquilo.
Só trabalhava.
Ficava no celular, fumando, vendo televisão...
Eu entendo essas falas. Quando a morte chega perto, não pensamos apenas na vida de quem partiu. Pensamos também na nossa: no que estamos fazendo, no que adiamos e no tempo que continua passando.
Ainda assim, aquelas frases me incomodaram.
Parecia que uma vida inteira estava sendo medida por uma lista de coisas que ele deveria ter feito para que sua existência pudesse ser considerada bem vivida.
Mas quem fez essa lista?
Quem decidiu que uma vida precisa ter muitas viagens, grandes realizações ou uma história capaz de impressionar os outros para ter valido a pena?
Não sei se meu tio pensava em legado. Depois que ele partiu, porém, as histórias começaram a aparecer. E eu percebi quantos lugares ele ocupava: nas lembranças da família, na vida de quem trabalhou pra ele, nos amigos, nos encontros.
Também percebi isso por meio de uma coisa muito simples.
Meu tio fundou uma indústria de bolinhas de amendoim com polvilho. Aquelas bolinhas brancas e crocantes que alguém coloca na mesa durante uma festa, oferece no meio de uma conversa ou come distraidamente.
A indústria existe há 30 anos. Durante todo esse tempo, ele esteve à frente do trabalho, produziu, empregou pessoas e ajudou a sustentar muitas famílias.

Por que eu levei um petisco de R$ 2 para o meio de Paris?
Eu levei um pacote dessas bolinhas comigo.
Quando olhei para aquela embalagem tão longe de onde tudo começou, pensei no caminho que uma coisa criada por ele tinha percorrido.
As bolinhas saíam da fábrica e chegavam à mesa de pessoas que nunca saberiam o nome do homem por trás daquele trabalho. Estavam em festas, conversas, encontros de família e dias comuns.
Uma delas chegou comigo a Paris. Foi então que entendi o alcance de uma coisa que, de tão cotidiana, poderia passar despercebida.
Meu tio não precisou realizar algo grandioso aos olhos do mundo para participar dele. Fazia o trabalho que sabia fazer. Esse trabalho gerava sustento, criava lembranças e chegava a lugares que ele nunca conheceria.
Isso também acontece conosco. Você diz uma frase e não descobre o que ela provocou. Prepara uma comida, manda uma mensagem, faz o seu trabalho ou cuida de alguém sem saber onde aquele gesto vai terminar.
Quase nunca recebemos um relatório sobre as consequências da nossa presença na vida dos outros. Por isso, é fácil concluir que fizemos pouco.
Meu tio foi marido, pai, avô, tio, tio-avô, padrinho e amigo. Foi industrial, músico, engenheiro e professor. Nenhum desses lugares resume quem ele foi. Juntos, eles contam a história de uma vida inteira.
Por isso, quando escuto que ele deveria ter viajado mais, aproveitado mais ou vivido de outro jeito, volto à mesma certeza:
Não faltou nada.
Ele viveu dentro das circunstâncias que tinha. Amou, trabalhou, ensinou, construiu. O que ele fez continua nas pessoas, nas histórias e até nas bolinhas que chegam à mesa de tanta gente.
Por que precisamos esperar a ausência para enxergar o valor de uma presença?
Quantas vezes o seu trabalho já alcançou alguém que você nunca conhecerá? Quantas pessoas guardam algo bom que passou por você? Quantas vezes você foi importante sem ficar sabendo?
É possível que você nunca tenha essas respostas.
Mas o seu valor não começa quando alguém o reconhece. E a sua vida não passa a valer quando acontece algo grande o bastante para ser contado.
Enquanto esperamos pelo grande acontecimento, a vida segue no café que você tomou hoje, na conversa que teve, na pessoa que abraçou, no trabalho que fez, na comida que preparou e na mensagem que enviou.
Chamamos essas coisas de pequenas porque se repetem. Só que são elas que preenchem os nossos dias.
Ser uma pessoa comum não é pouco. Eu sou uma pessoa comum. Você também é. Nenhuma de nós consegue ver por inteiro tudo o que a própria existência movimenta ao redor.
Por isso, já não quero saber apenas se estou vivendo algo extraordinário. Quero reconhecer a vida que tenho enquanto ela acontece: sentir contentamento enquanto caminho, trabalho, converso, cozinho, descanso, amo e crio, sem transformar os meus dias numa sala de espera.
O sagrado pode estar justamente aí: no cotidiano, no encontro, no trabalho e na atenção que oferecemos a quem está perto.
Meu tio me fez lembrar disso. A morte dele deixou uma pergunta que continuo tentando responder:
Você consegue reconhecer o valor da sua vida enquanto ainda está vivendo?
Pode ser que você esteja procurando uma grande missão e não tenha percebido que ela já está em curso. No seu trabalho, nas suas relações, no que você cria e até nas coisas que faz sem considerar importantes.
A vida não está esperando para começar. Ela está acontecendo neste dia comum.
Nunca subestime um momento comum. Você não sabe até onde ele pode chegar.
A raiz desta carta: Raiz do Valor
Esta carta nasceu da Raiz do Valor: a parte de nós que precisa se lembrar de que valor não é recompensa por produtividade, conquista ou reconhecimento.
Ele também se revela no que oferecemos ao mundo por meio do trabalho, das relações, dos cuidados e da forma como atravessamos os dias.
Pergunta para cultivar esta raiz:
O que já existe em sua vida que você chama de “comum”, mas merece ser reconhecido como valioso?
Gesto de enraizamento
Hoje, escolha uma pessoa que faça parte da sua rotina e conte a ela por que sua presença é importante.
Pode ser uma mensagem simples:
“Acho que nunca falei isso, mas a sua presença torna a minha vida melhor. Sou grata por ter você nos meus dias.”
Pode ser alguém da família, uma amizade, uma pessoa com quem você trabalha ou quem participa silenciosamente da sua rotina.
Não espere a ausência revelar a importância do que está presente.
Cultivar a Raiz do Valor é aprender a reconhecer e expressar o valor enquanto a vida ainda está acontecendo.
É disso que trata Raízes do Agora: perceber o que sustenta a nossa vida e cuidar disso enquanto ainda estamos aqui.

