Alguns encontros permanecem porque conseguimos nos lembrar deles. Lembramos de uma conversa que nos marcou, de um amor, de uma despedida ou da chegada a uma cidade desconhecida. Sabemos contar onde estávamos, o que aconteceu e quem éramos naquela época.
Outros aconteceram cedo demais para se tornarem uma lembrança. Não temos imagens, palavras ou cenas para recuperar. Ainda assim, algo daquela experiência pode ter ficado em nós.
Quero falar sobre o primeiro encontro de todos: o nosso encontro com a vida.
O instante exato em que saímos do corpo da nossa mãe e chegamos a este mundo. Havia luz, temperatura, vozes, mãos, cheiros e movimentos ao redor. Antes de sabermos nosso nome, já estávamos vivendo uma experiência.
Ninguém chega ao mundo da mesma forma. Algumas mães conseguem segurar o bebê logo depois do parto, outras precisam esperar. A chegada pode acontecer com alegria e tranquilidade ou cercada de medo, pressa, cansaço e preocupação. Muitas dessas histórias nunca foram contadas, e certas perguntas continuarão sem resposta.
Seja como for, você chegou. Ali aconteceu o seu primeiro contato em carne e osso com sua mãe, com quem estava por perto e com este mundo.
O que veio antes da memória
Conheci, por meio dos ensinamentos de Sri Bhagavan, uma forma de olhar para o período entre a concepção e as primeiras horas de vida. Ele dividia esse percurso em quatro etapas, chamadas de quatro cestas.
Primeira cesta: da concepção até aproximadamente o segundo ou terceiro mês da gestação.
Segunda cesta: do segundo ou terceiro mês até o início do trabalho de parto.
Terceira cesta: o processo do nascimento, incluindo as contrações, a pressão e a passagem pelo canal de parto.
Quarta cesta: do momento em que o bebê nasce até aproximadamente as primeiras seis horas de vida.
Segundo esse ensinamento, o que vivemos nesses períodos deixaria registros profundos e influenciaria a maneira como nos relacionamos com a vida depois.
Eu não uso essa ideia para explicar tudo o que uma pessoa sente ou vive. Também não acredito que o nosso começo determine toda a nossa história, é muito além disso. O que me interessa aqui é a possibilidade de olhar para a chegada como uma experiência muito importante, mesmo que não consigamos nos lembrar dela.
Antes de formar uma memória, o corpo já sentia.
Sentia a pressão, a temperatura, o toque, a espera, a proximidade ou a distância. É possível que esse primeiro contato tenha deixado uma espécie de impressão sobre o que significa chegar, receber cuidado e encontrar lugar.
Enquanto escrevia esta carta, uma pergunta apareceu:
O que o meu corpo aprendeu no seu primeiro encontro com o mundo?
Não tenho uma resposta pronta. Nem sei se algum dia terei. A pergunta, porém, me ajuda observar certas situações da vida de outro jeito.
Existem pessoas que entram em um lugar novo pedindo licença por ocupar espaço. Outras sentem que precisam chegar prontas, sem demonstrar dúvida ou necessidade. Algumas desejam proximidade, mas recuam quando alguém se aproxima. Para outras, é difícil receber ajuda, afeto e cuidado, mesmo quando tudo isso está disponível.
Esses movimentos podem ter muitas origens. Nossa história é maior do que o nascimento. Ainda assim, pensar naquele primeiro encontro abre uma possibilidade de escuta.
Como aprendi a chegar?
Como reajo quando a vida muda e já não sei exatamente o que fazer?
O que acontece comigo quando preciso confiar que haverá lugar do outro lado?
Durante a vida, chegamos muitas vezes
O nascimento foi a nossa primeira chegada, mas não foi a única.
Chegamos a uma escola, a uma casa nova, a um trabalho, a um relacionamento e a um grupo de pessoas que ainda não conhecemos. Começamos projetos, encerramos fases e ocupamos lugares que antes pareciam distantes. Em alguns momentos, precisamos chegar até uma versão de nós mesmas que ainda estamos aprendendo a conhecer.
Cada início movimenta alguma coisa.
Pode ser entusiasmo, medo, curiosidade, desconfiança ou a vontade de voltar para o que já era conhecido. Às vezes, a situação é nova, mas a sensação que aparece parece antiga. Sabemos que desejamos seguir, porém alguma parte nossa se prepara como se estivesse diante de um perigo.
Foi por isso que a ideia dos primeiros encontros me tocou.
Eu comecei a pensar que, quando algo novo surge, não estamos lidando somente com o que acontece naquele momento. Também levamos conosco as experiências anteriores de chegada, pertencimento e acolhimento.
Levamos o que vivemos na família, na escola, nos relacionamentos e em todos os lugares onde aprendemos se podíamos aparecer por inteiro ou se era melhor esconder alguma parte. Levamos até aquilo de que não nos lembramos.
Só que a mulher que chega hoje já não é o bebê que dependia completamente das condições ao redor.
Hoje podemos perceber o que sentimos, pedir ajuda, colocar limites, esperar um pouco antes de decidir e procurar companhia. Podemos observar quando o medo assume o comando e quando começamos a nos tratar com a mesma dureza que um dia nos feriu.
Isso não significa que teremos controle sobre a forma como seremos recebidas. Uma pessoa pode não compreender nossa escolha, o projeto pode dar errado e aquele novo caminho que abre-se pode trazer dificuldades que não previmos.
Mesmo assim, existe uma participação que agora nos pertence: a maneira como permanecemos conosco enquanto atravessamos o começo.
Voltar não significa procurar culpados
Quando olhamos para experiências da gestação, do parto e das primeiras horas de vida, é fácil transformar a reflexão em uma busca por responsáveis.
Não é esse o lugar para o qual quero levar esta carta.
Nossos pais e as pessoas presentes no nascimento também estavam vivendo suas histórias. Tinham recursos, limites, medos, desejos e circunstâncias que desconhecemos. Em alguns casos, fizeram o melhor que podiam, já em outros momentos, não conseguiram oferecer aquilo de que precisávamos. As duas coisas podem fazer parte da mesma história.
Voltar ao primeiro encontro serve para reconhecer o que essa imagem desperta hoje.
Pode surgir tristeza por não ter sido recebida da maneira que gostaria, ou, sentir uma imensa gratidão. E também você pode não sentir nada ou descobrir que sabe muito pouco sobre o próprio nascimento. Não precisamos inventar uma memória para que a reflexão tenha valor.
Podemos começar pela vida que temos agora.
Quando algo novo aparece, eu me acolho ou me apresso?
Escuto o que estou sentindo ou tento me corrigir imediatamente?
Consigo aceitar que ainda não sei ou transformo cada dúvida em prova de incapacidade?
Faça essas perguntas, por aqui, eu percebi que muitas vezes repetimos dentro de nós a recepção que mais tememos encontrar fora. Com medo da rejeição, diminuímos o que desejamos. A possibilidade de questionarem nossa capacidade nos faz cobrar perfeição. E, quando imaginamos que não haverá espaço, recuamos antes mesmo de tentar ocupá-lo.
Foi aqui que a reflexão deixou de ser apenas sobre o nascimento e passou a falar sobre o presente.
O primeiro encontro já aconteceu. Agora, a forma como me encontro hoje, ainda está sendo construída.
O início de outubro de 2026
Na leitura numerológica que inspira esta carta, outubro carrega o número 1, porque 10 se reduz a 1. O ano de 2026 também chega ao número 1. Nos dias 1, 10, 19 e 28, o número do dia segue a mesma redução. Por isso, essas quatro datas são chamadas de portais 1-1-1 e associadas a inícios, direção e autonomia.
Quero usar esses dias como marcos para acompanhar quatro assuntos da vida que pedem atenção agora.
Escolha os seus antes de seguir. Pode ser uma relação, uma decisão profissional, o cuidado com o corpo, um projeto, uma questão financeira ou uma mudança que você vem adiando. Dê um nome simples a cada assunto e escreva um deles ao lado de cada data:
1 de outubro de 2026:
10 de outubro de 2026:
19 de outubro de 2026:
28 de outubro de 2026:
Quando a data chegar, reserve alguns minutos somente para o assunto escolhido. Leia o que escreveu e pergunte:
Como estou chegando a esta parte da minha vida?
Anote o que precisa começar, terminar ou mudar. Depois, escolha um movimento que possa ser realizado naquele mesmo dia. Marcar uma conversa, enviar uma mensagem, organizar um documento, pedir ajuda, dizer não ou reservar uma hora na agenda já conta.
Evite respostas amplas como “quero mudar minha vida”. Procure o passo que cabe na realidade e que depende de você.
No dia 28, releia as quatro anotações. Observe onde houve movimento, onde você recuou e qual assunto ainda precisa de tempo. O portal, aqui, não funciona como promessa de transformação imediata. Ele marca o seu compromisso de estar presente diante do que deseja iniciar.
Um encontro com você
Antes de terminar, quero convidar você a voltar por alguns instantes ao começo.
Feche os olhos. Sinta o apoio do corpo e acompanhe a respiração até ela desacelerar. Depois, leve a atenção ao coração. Você não precisa reconstruir o parto nem descobrir exatamente o que aconteceu. Basta reconhecer: um dia, você chegou.
Imagine a mulher que é hoje diante daquela criança que acabava de encontrar o mundo. O que você gostaria de dizer a ela?
Fique com a primeira resposta, mesmo que seja apenas uma palavra.
Eu cheguei.
Eu tenho lugar aqui.
Hoje, eu me recebo.
A raiz desta carta: Raiz da Origem
Esta carta nasceu da Raiz da Origem, que nos leva ao lugar onde a nossa história começou. Olhar para esse início nos ajuda a reconhecer o que ainda pede acolhimento e a criar a segurança de que precisamos hoje.
Pergunta para cultivar esta raiz:
Ao imaginar a minha chegada ao mundo, o que em mim pede acolhimento?
Gesto de enraizamento
Procure uma fotografia dos seus primeiros meses de vida. Se não tiver, escreva seu nome completo e sua data de nascimento no alto de uma folha.
Olhe para essa criança e comece uma pequena carta com a frase:
Quando você chegou a este mundo...
Escreva sem tentar explicar sua história. Diga apenas o que gostaria que ela soubesse hoje. Ao terminar, coloque a mão sobre o coração e leia a carta em silêncio.
Cultivar a Raiz da Origem é olhar para o começo sem permanecer presa a ele e participar, no presente, da maneira como nos acolhemos.
É disso que trata Raízes do Agora: cuidar hoje daquilo que nos sustenta.

